Artigo de Março 2014
China-Brasil: uma união estável?

 

 

Por Jerome P.Santos 

 

 

 

 

O Brazil e a China tem uma forte atração mútua por diversas razões. Entretanto, a razão mais proeminente é bem simples de se entender: a China precisa de recursos naturais e o Brasil quer e precisa de capital. O Brasil é rico em recursos naturais e a China é rica em capital. A princípio parece ser uma combinação perfeita. A economia brasileira está crescendo e este crescimento é orgânico. A classe média brasileira está em expansão e também está se tornando mais educada e exigente. Essa nova classe média é hoje em uma força de compra dinâmica que cria uma crescente demanda para diversos produtos e serviços. Tal fenômeno também exige que melhorias significativas sejam feitas na infraestrutura do país. A classe média chinesa também está crescendo, gerando um desafio para o governo chinês em manter um suprimento de alimentos e energia constante para seus cidadãos. Existem razões lógicas para essa atração mútua entre os dois países mas, será que esse relacionamento sino-brasileiro será duradouro ou simplesmente ”fogo de palha”?

Brasil e China começaram a fortalecer seu relacionamento no final do século XIX. As relações foram formalmente estabelecidas em 1880 por um Tratado de Amizade, Comércio e Navegação. Em 1913, o Brasil reconheceu a República da China. No período de 1911 a 1949, as relações entre os dois países eram basicamente diplomáticas. Com a Revolução chinesa e criação da Republica Popular da China, em 1949, as relações entre Brasil e China foram cortadas, sendo somente restabelecidas oficialmente em 1974 com um acordo para as construções da Embaixada do Brasil em Pequim e da Embaixada da China em Brasília. Esse novo momento entre Brasil e China foi o que estabeleceu um ambiente confortável para o inicio do processo de cooperações e trocas, econômica, política e tecnológica entre os dois países. Nos últimos vinte anos Brasil e China tem cooperado em muitas áreas, tais como produção de satélites para monitoramento de recursos terrestres, tecnologia da informação, telecomunicações, agricultura, saúde e pesquisas de biotecnologia, genética e nanotecnologia. Nos anos 90, com a abertura da economia brasileira e as reformas na economia da China, a troca bilateral entre as duas nações se intensificou rapidamente, sinalizando a importância e as possibilidades no futuro destes países.

 

Hoje a China é um dos principais parceiros comerciais do Brasil e também uma de suas maiores fontes de investimento de capital. Ambos os países apostam no aumento de suas exportações e importações para suprir necessidades internas e favorecer suas balanças comerciais. O Brasil exporta para a China soja e seus subprodutos, minério de ferro, ferro e aço laminados e semimanufaturados, automóveis e produtos relacionados a esta indústria, couro, madeira e papel. China por sua vez, é um grande investidor na indústria brasileira do petróleo e gás. Em outubro passado, o Brasil realizou um leilão de direitos de perfuração do “pré-sal” em seu imenso campo recém-descoberto de petróleo. Esperava-se que cerca de quarenta companhias de petróleo participariam desse leilão, mas o novo quadro regulatório do Brasil desencorajou a maioria delas e o leilão atraiu apenas quatro licitantes estrangeiros, dois dos quais eram empresas chinesas. Sem a participação da China, esta venda de direitos de perfuração teria sido vista como um imenso desastre. No setor de energia elétrica, a PowerChina recentemente ganhou a concessão da linha de transmissão da usina hidrelétrica no Pará, avaliada em cerca de US$ 156 milhões. Com o projeto a PowerChina transmitirá eletricidade da estação hidrelétrica de Belo Monte para regiões de alta demanda no sudeste do país. Recentemente, projetos de infraestrutura tais como rodovias, ferrovias de alta velocidade, portos e fábricas estão sendo vistos pelos chineses como alvos atraentes para investimentos.

 

Existem algumas questões que precisam ser tratadas com atenção para que o relacionamento de negócios chinês-brasileiro obtenha longevidade. Geograficamente, os países estão muito distantes, causando alguns problemas de logística além de uma significativa diferença de fuso-horário. Culturalmente, brasileiros estão mais acostumados aos estilos americanos e europeus de fazer negócios. Poucos entendem a cultura chinesa no Brasil e, em alguns momentos, isto pode levar a erros de comunicação e desconfiança. Alguns Brasileiros também estão preocupados com o fato de que as exportações industriais chinesas tomem uma fatia dos produtos Brasileiros no mercado internacional e que também, aos poucos, invadam o mercado interno brasileiro causando a redução do setor industrial brasileiro em alguns segmentos. A China se preocupa com as políticas protecionistas do Brasil em algumas áreas econômicas - uma reinterpretação das leis brasileiras de propriedade da terra em 2010 pareceu direcionada aos investidores chineses, assim como a nova taxa de importação de veículos automotores, uma prática protecionista bem conhecida que o governo brasileiro usa em vários segmentos da indústria. Estes são alguns dos desafios para ambos os países mas, com a necessidade mútua e contínua, paciência e uma visão de negócios a médio e longo prazo, estes obstáculos podem ser superados.

 

Apesar da enorme distância geográfica separando os dois países e as diferenças entre as culturas Orientais e Ocidentais, existem razões suficientes para que a China e o Brasil continuem a expandir suas relações comerciais e econômicas. A recuperação lenta das economias Europeia e Americana deu à China e ao Brasil o tempo necessário para que amadurecessem seu relacionamento e para que entrassem em acordos sérios de médio e longo termos. Ambos, o Brasil e a China, parecem querer uma relação estável e longa, e esse relacionamento deverá ser forte o suficiente para que sobreviva à eventual recuperação das economias ocidentais.